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20.03.08


O POÇO.

Era uma vez um poço...Profundo...Escuro...Úmido e com água no fundo.

Algumas avencas e samambaias pregadas nas paredes, denunciavam a vida interior...

Para dentro dele muitas pessoas espiavam para ver o que tinha lá dentro, olhares curiosos...

A alma do poço era uma ninfa, a Ninfa do Poço, como era conhecida na região.

A ninfa costumava  avisar, “não se aventure para dentro do poço!”, porém, as pessoas não davam ouvidos à ela, achavam besteira as palavras dela, e se aventuravam entrar no poço...Talvez movidos pela curiosidade, ou seduzidos pelo mistério do poço, havia até aqueles que queriam profanar a pureza do poço, beber de sua água, levar um pouco, pois a água dele era curativa, mágica, transformadora...e entravam nele.  O poço os acolhia, permitia que bebessem de suas águas mais puras, águas intocadas, porque todo poço é fonte por baixo, desemboca em lençois infinitos, onde jorram água, renovação da vida. O poço permitia que enchessem seus jarros vazios, acolher e encher jarros, essa era função maior do poço de águas curativas, com alma de ninfa.

Porém as pessoas se enjoam de ficar no poço, se debatiam em angústia e queriam sair dele e saiam, iam embora, deixando a ninfa lá, com o vazio. Diziam, esse poço é muito profundo, sufoca, prende, assusta...

Seria destino da ninfa do poço sentir a solidão e o vazio, daqueles que se aventuram à conhecer seus mistérios, beber de suas águas e depois  ser deixada lá sozinha com seu profundo vazio de poço?

Porque  Deuses de todos os tempos formas e tamanhos não olham para o poço e permitem um guardião na entrada?...Um guardião que cuide, vigie e não deixe aproximarem-se dele os aventureiros que só são movidos pela sedução do mistério que o poço emana? Um guardião em forma de boto talvez, meio homem, meio peixe, que aguentasse a profundidade do poço e se deleitasse em suas águas vez por outra...Sua parte peixe amaria e cuidaria da fonte sagrada do poço, sua parte homem se encantaria com a doçura da ninfa. Que pretendem os Deuses deixando esse poço tão sem dono? Tão sem proteção? Tão só?

Deuses  eu clamo ao Todo! Olhem para o poço!  Cuidem dele!  Fechem sua entrada e permita que nasçam ao redor dele espinhos intransponíveis ao acesso da morada da ninfa, ao acesso da alma da ninfa...Por que com a solidão,  poço e ninfa sabem lidar, nasceram assim,unos e sós, o que maltrata é o vazio deixado pelos que entram, e saem, vem e vão...Que são acolhidos e se sentem sufocados pelo acolhimento, que são cuidados e sentem se assustados e presos pelos cuidados.  Como ninfa e poço não sabem ser diferentes, são profundidade, receptáculo, umidade, escuro de onde se vê a luz e não luz de onde se vê escuridão, natureza de poço  e pronto...Aqueles que entram, reviram demais suas águas serenas do fundo, tocam em águas nunca antes tocadas, deixam suas águas límpidas que é pura lama. Sim, por que sempre haverá terra no fundo, terra e água. Quando entramos por ele, parece que não tem mais fundo, que a profundidade dele é infinita, mas lá no fundo há chão, basta um impulsionar, um pular e sair...E é assim que fazem.  Nem se permitem conhecer os lençois e nadar por esse mundo infinito.

Permita ó Srs, que essas águas permaneçam intocadas, puras...Afaste desse poço os aventureiros que nem fazem idéia do que é ser um poço. Não sabem o que é ser um poço morada, com alma de ninfa. Não sabem como é ser profundo, escuro, úmido e cheio de vida dentro, fora, por toda parte, não sabem o que é ser fonte, não sabem o que é ser o acesso ao mundo dos lençois...Não sabem nada esses pobres aventureiros!

Sendo assim...

Esqueçam do poço. Esqueçam  da ninfa. Esqueçam da fonte e dos lençois. Esqueçam de tudo e permaneçam longe do sagrada morada da ninfa do poço.

Escrito por Gladys~* às 20h15
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