Não gosto de entrar em alguns cantos de mim mesma.
Parece aquele quartinho de bagunça que quando entramos sempre precisa de uma arrumação. Sempre. Por mais que a gente ajeita, por mais que joguemos tralhas fora, sempre vamos nos deparar com algo a ser arrumado, a ser dispensado, a ser organizado.
E nessa busca por organizar tudo lá dentro, não consigo sair de lá, me deparo com emoções velhas, medos, lembranças...
Tudo nessa vida passa... Coisas boas e coisas ruins...Dores...Amores... Alegrias...Tristezas...
Mas o que aprendemos com tudo isso nunca passa, deixa marcas, deixa muitos registros no quartinho de despejo que sempre precisa de arrumação.
Ao menor sinal da dor se repetir, da ferida se abrir, somos puxados pelas nossas lembranças a esse quartinho.
E a cabeça gira, e o tempo não passa, temos somente a consciência de que o tempo não passa, nós é que passamos por ele, tempo é uma avenida pela qual trafégamos, indo e vindo, as vezes parando e sendo atropelados pela grande massa que traféga nessa avenida tão cheia de portas...de portais...de becos...
Mas o acesso a essa estranha avenida é mesmo o quartinho. Lá nos consciêntizamos que estamos sempre nessa avenida, e cada ato nosso aqui nessa terra, é mais um cardamaço de coisas para serem arrumadas no quartinho pessoal de entulhos.
Acredito que a peça fundamental nesse é uma balança de dois pratos...Num prato as dores, no outro prato os amores...Qual pesa mais? Somente com a consciência do que cada prato nos deixou, podemos ter consciência do que pretendemos ou devemos mesmo colocar a mais no épico quartinho de nossas tantas jornadas por essa vida, por esse tempo, por essa avenida, saber discernir por quais dessas tantas portas devemos entrar, quais dessas tantas portas nos trará amores ou dores à serem acrescidas nos pratos da balança do quartinho.
Somos os transeuntes da avenida, o pesador da balança, mas somos também aquele que escolhe o que deve ou não entrar, ser pesado, somos o faxineiro de lá, mas somos quem desorganiza, suja e as vezes quebra tudo lá, somos até quem quebra a balança do discernimento que pesa o que é certo ou errado, o que é bom ou mal, o que queremos e o que fazemos para obter nosso querer...
Bicho burro...bicho anta...bicho que não aprendeu ainda a virar ser humano, tá tentando aos trancos e barrancos se humanizar...
Bicho que se perde na alameda do tempo, que olha com olhos deslumbrados de criança para todos luminosos neons enganadores, seduzido pelas luzes bonitas...
Bicho que se atrela as teias de tudo que já passou, que já viveu, que aprendeu e ao que desaprendeu...e no ímpeto selvagem de se soltar, se enrosca cada vez mais. Bicho de pouca consciência de si próprio e de seus atos...Oh tristeza...
Para o mundo que eu quero descer!


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